30/01/2010 - 11:58

Zezéu solta o verbo: “Joacy soube romper com o esquema do PMDB que tinha uma política mesquinha e pequena”

Em entrevista exclusiva ao repórter Pedro Moraes, para o jornal Cultura&Realidade, o deputado federal Zezéu Ribeiro (PT-BA), avaliou a política no âmbito regional e estadual e comentou as relações partidárias com o pré-candidato do partido ao cargo de deputado estadual, Joacy Dourado. Zezéu também debateu sobre a ruptura do PMDB com o PT na Bahia, a saída de Marina Silva do partido e anunciou investimentos para a microrregião de Irecê.

Confiram abaixo, na íntegra, o depoimento do parlamentar que esteve ontem (28) na IV Conferência das Cidades em  Irecê. 

 

Cultura e Realidade - Ontem o senhor chegou à microrregião de Irecê e visitou algumas localidades anunciando investimentos no setor esportivo e de infraestrutura. Quais os locais o deputado percorreu nesta visita e o que foi anunciado?

 

ZEZÉU RIBEIRO - Vim à região a convite do prefeito Pedro Rocha de Uibaí e do secretário de infraestrutura Zé Marcelino, de Irecê.  Estive com Pedro em diversas comunidades rurais debatendo as políticas do governo Lula e do governo Wagner, assim como, a relação que podemos estabelecer com as prefeituras, fazendo uma articulação e parceria entre os três níveis de governos para conquistar políticas públicas para os municípios. Pedro Rocha e Zé das Virgens têm uma preocupação muito grande não só com a cidade deles e sim com a região e isso engrandece o debate.

A noite passada (28) estive em Itapicuru com o secretário Dóia (da agricultura), para anunciar uma emenda que vai sanar uma reivindicação antiga de pavimentação no valor de R$200.000,00. No sentido de melhorar as condições de vida, estive na Praça Chico Mendes, onde tivemos uma reunião ampla com lideranças, discutindo a política nacional, debatendo o pequeno espaço onde nós vivemos, bem como a  política geral do mundo. Em Amargosa o lema da cidade é: “Amargosa um pedacinho do Brasil” a gente vive o Brasil em Amargosa e para quem vive em Irecê o Brasil é Irecê.  É a relação que estabelecemos na família, no trabalho, no sindicato, na igreja, na associação, nos clubes que geram valores, que interferem na realidade que queremos transformar, fazendo isso, é que pensamos globalmente e agindo localmente, que construindo a política. Essa é uma prática que está sendo executada por nós, particularmente na região de Irecê.

Hoje, estamos participando dessa conferência da cidade que é uma reunião importante que busca estabelecer o vínculo entre município e estado, e essa união afirma políticas do âmbito geral, com as demandas da sociedade, entre tantas, postos de saúde, escola, quadras esportivas, pavimentação e uma política de desenvolvimento urbano maior, como o direito a moradia.  Estou voltando para Salvador, vou participar do Fórum Mundial, mas passarei em antes em João Dourado para rever os amigos.

Nós aprovamos a recuperação de quatro campos de futebol, demanda do companheiro Neo, e nesta recuperação será feita a construção de vestiários, demarcação e nivelamento. É a promoção do esporte. Em Irecê, temos duas quadras, originárias de emendas nossas, uma na Vila Félix, que está sendo finalizada e outra inaugurada há mais tempo no bairro Lagoa do Barro.

 Em Uibaí, também temos duas quadras, posto de saúde e estamos lutando pela pavimentação e recuperação da estrada que liga Central a Ibititá, passando por Uibaí. Estamos trabalhando também pela recuperação do abastecimento de água. O governador chega na próxima semana na região para anunciar obras. Na política, em umas atividades nós temos uma participação mais direta, alocando os recursos, em outras, buscamos acompanhar as demandas locais formuladas pelo prefeito e trabalhamos para que elas sejam agilizadas nos processos burocráticos.

 

C&R - Foi aprovado um projeto de lei de sua autoria e sancionado pelo presidente Lula, que garante assistência técnica a moradia para pessoas que não tem recursos. Gostaria que o senhor comentasse sobre a importância dessa lei e como se encontra a sua execução.

 

ZR- Hoje(29), estamos encerrando as inscrições por parte de prefeituras e entidades da sociedade civil para garantir os recursos para assistência técnica à população de baixa renda. Basicamente, aqueles conjuntos que estão efetivados pela própria comunidade, foi outra emenda que fiz, que assegura que o gerenciamento seja feito também pelas cooperativas, movimentos sociais e sindicatos que tenham experiência nessa área. Essa articulação tem elevado a construção de habitação com novas tecnologias, com muita inventividade do saber popular associado a essa assistência que vem colaborar com isso, dando o direito a população com até três salários mínimos a ter o serviço profissional de engenharia e arquitetura na elaboração do projeto e na sua execução.

 

C&R - O senhor apoiou historicamente o prefeito Zé das Virgens em suas eleições para deputado e prefeito, que é um nome de referência dentro do Partido dos Trabalhadores. Hoje, o ex-prefeito Joacy Dourado, que tem um passado ligado à direita, é o pré-candidato do governo a deputado na região. O seu apoio continua?

 

ZR- Zé das Virgens é uma referência regional, Joacy também.  Nós ajudamos a eleger Joacy, para prefeito e tivemos o companheiro Marcelino como vice-prefeito. Estamos construindo em Irecê há muito tempo, uma política diferenciada na região e temos mantido isso há um bom período. A eleição de Zé das Virgens é também uma consequência do apoio de Joacy, que soube romper com o esquema do PMDB que praticava uma política mesquinha e pequena, apostando no melhor para Irecê. Joacy teve a capacidade de fazer esse enfrentamento, então vamos marchar ombro a ombro nessa campanha.

 

C&R - Mas o deputado sabe que o nome dele é contestado por diversas lideranças petistas locais...

ZR- Mas vamos conseguir superar isso quando imaginarmos que temos objetivos maiores, que é a eleição de um representante regional. Com o convívio vamos permitir aprofundar essa aproximação. Uso sempre uma sabedoria de minha avó que dizia: Meu filho, para casar tem que comer um saco de sal, e um saco de sal você não come de um dia para o outro, a pessoa tem que ter muitas refeições. O tempo vai fazer a relação amadurecer, criando mais a confiança e afirmando compromissos.  Tenho certeza que o companheiro Joacy Dourado é um combatente fiel a suas causas.

 

C&R – Zezéu, o senhor apoiou a aliança do PT e PMDB e depois declarou que seria a favor da ruptura, por quê?

 

ZR – Na verdade, o PMDB deixou a situação insustentável, ele que rompeu. Eles tentaram se fazer de vítima e deram um passo em falso, se acharam maior do que eram, coisa de uma arrogância que o povo percebeu. Eu sempre fui a favor da aliança do PT com o PMDB, infelizmente, o PMDB da Bahia que suspendeu.

 

C&R – Como o deputado avalia os quatro anos do governo Wagner na Bahia e o final do governo Lula?

 

 ZR – Extremamente positivo. Nós pegamos a Bahia numa situação muito difícil,  porque a Bahia boa, com desenvolvimento, era a Bahia da propaganda, e nós modificamos isso. Buscamos construir uma cidadania, um projeto para o estado articulado com o nacional. Esse projeto afirmou o Brasil como nação, com soberania e não com integração subalterna como fazia o governo do DEM e dos tucanos.

Fizemos uma alteração com índices de RH afirmativos, o que tornou lula, um dos grandes líderes mundiais. Tivemos a capacidade de compreender as divergências e trabalhar em torno da superação. Tivemos também a generosidade de trabalhar com os mais fracos respeitando as suas debilidades, porém atraindo-os para um projeto maior. Isso permitiu uma projeção importante, um projeto tanto no plano comercial, nas relações Sul/ Sul, como na integração latino-americana, em relação a ALCA, que seria um desastre para o Brasil. Os países que se envolveram, que tinham sua economia dependente dos Estados Unidos  sofreram um baque, como o Brasil diversificou as relações, tivemos uma condição muito melhor para enfrentarmos a crise.

Aliamos também as questões do mercado interno, o Brasil olhou para si próprio. Milton Nascimento tem um poema que diz: “ficar no litoral olhando para o mar e de costas para o Brasil não vai fazer deste lugar um bom país”, por isso mesmo é que estamos olhando para o interior, fixando no homem do campo, criando condições de vida, que começam com o Bolsa Família, que eles chamavam de “bolsa esmola”, que mudou a realidade das famílias e das cidades, ou com o programa de renegociação da divida agrícola, o aumento do PRONAF e seu direcionamento para o Nordeste e com o sucesso do Luz Para Todos. Assim, garantimos que os pobres se alimentassem, que tomassem um financiamento para trabalhar e com o Luz Para Todos agregasse valor à sua produção. Isso fixou o homem no campo.

O coroamento é a retomada do ensino tecnológico com  sua interiorização e a descentralização do ensino superior. O interessante é que quem está fazendo isso é o quem eles chamavam de analfabeto.

 

C&R – Recentemente nomes históricos do partido saíram do PT, como o deputado federal Bassuma e a senadora Marina Silva. Como o senhor observa a saída desses nomes? Inclusive, Bassuma em sua passagem pela região, afirmou que não foi ele quem mudou e sim o partido, o senhor concorda?

 

ZR - Olha, Marina é um prejuízo enorme, para o PT, Brasil e para ela, porque ela terminou em um partido que a gente não sabe para onde vai. Tem problemas no PT? Qualquer um outro têm muito mais que o PT.  Erramos no trato com Marina, mesmo saindo do ministério, ela deveria ter tido um respaldo e uma posição maior de afirmar políticas. Erramos por isso, mas não tenho dúvidas que ela é uma combatente do nosso lado. Sobre Bassuma, acho que ele teve uma atitude mais oportunista, que prefiro não comentar.

 

C&R - E candidatura de Dilma?

 

R- É vitoriosa.  Já podemos perceber isso nas pesquisas. Na Bahia ela já passou, em Pernambuco e Rio também. Ela não precisa crescer tanto agora, isso tem que ir se solidificando nesse processo, se afirmando paulatinamente. Dilma é a esperança de consolidarmos as conquistas do governo Lula e aprofundarmos nas mudanças ainda necessárias.

 

C&R – Existe um tema que interessa muito à zona rural, inclusive à região de Irecê, que é a aprovação da ATER, porém, também é muito comentado que a lei deveria estar em vigor há mais tempo, e como foi sancionada agora, seria uma medida voltada para eleições, até porque não teríamos mão de obra qualificada para isso, nessa proporção. Como o senhor avalia essa questão?

 

ZR -  O governo Collor destruiu o sistema de assistência técnica rural e a abandonou. Estamos recuperando isso, porém não acontece de um dia para a noite.  Quando me referir às bases para o aumento da produção rural da Agricultura Familiar, isso vem aliado à recuperação da CONAB, que tinham muitos galpões abandonados e hoje estamos construindo novos galpões porque a demanda aumentou. Se afirmarmos uma política efetiva de técnicas e inspeção rural, elevamos o padrão, verticalizando a produção, reduzindo os custos e aumentando a produtividade. Esse é nosso objetivo,  estamos fazendo isso com a utilização dos profissionais que estão agora,  e contamos com muitos que abandonaram por falta de oportunidade estão voltando ao mercado de trabalho.

O governo vem abrindo cursos na área tecnológica e outros acadêmicos no setor da agropecuária, na veterinária,  agronomia e engenharia florestal, que vão construir um novo suporte para darmos passos sólidos, que dentro de cinco a dez anos, deixarão o Brasil na quinta economia do mundo.

 

C&R - Uma de suas grandes bandeiras de sua campanha foi a luta pela retomada do nome Dois de Julho para o aeroporto internacional de Salvador. Quando isso vai acontecer?

 

ZR - Temos esperança grande. O problema é que o Dois de Julho é muito pouco conhecido na história brasileira, as pessoas de outros estados não sabem o que foi o Dois de Julho. O império combateu o Dois de Julho e retirou da historiografia nacional. Então, além de um processo político também é cultural. As pessoas se lembram do deputado Luís Eduardo, homenageado no aeroporto, porque muitos conviveram com ele. Essa mudança tem que ser construída, por isso, estamos fazendo eventos de conscientização, para e retomada, porque essa é uma exigência do povo baiano.

 

C&R - Foi divulgada uma lista de deputados que não aderiam à Frente Parlamentar em Defesa do Diploma de Jornalista para o Exercício da Profissão. O seu nome constava, o senhor é contra a obrigatoriedade da formação de jornalista?

 

 ZR – Desconheço que tenha saído algo nesse sentido. Sou favorável a restituição da exigência do diploma para o exercício da profissão...

 

C&R – Mas a PEC do deputado do Rio Grande do Sul, Paulo Pimenta, que é o principal instrumento da Câmara dos Deputados para essa finalidade, não tem a sua assinatura...

 

ZR- É porque às vezes, alguns processos não passam por a gente, mas em meus posicionamentos e posições deixo isso bem claro, e as defendo, não tenha dúvidas disso.

 

 


Fonte: PEDRO MORAES | PEUMORAES@YAHOO.COM.BR